A Chaconne da Partita nº2 em Ré menor BWV 1004

de Johann-Sebastian BACH (1685-1750)

ficheiro midi

Um monumento da música europeia

Esta monumental Chaconne (Ciacona) é o 5º movimento da partita nº 2 para violino solo (e o seu movimento final) e é considerado um monumento da música europeia, tendo-se tornado num dos pilares da literatura para violino. A Chaconne é um dos poucos trabalhos de variações de Bach e é possivelmente o maior conjunto de variações alguma vez escrito para um só instrumento. As únicas outras variações que se aproximam da sua perfeição são as variações de Goldberg. E muitos músicos são de opinião que, mesmo que Bach só tivesse composto estas duas peças, já mereceria ser considerado um dos maiores (ou mesmo o maior) compositor de todos os tempos. Bach, com o seu génio melódico e as suas invenções, foi possivelmente o mais exímio explorador de todas as possibilidades do uso da música como uma linguagem para exprimir sentimentos profundos. As composições que Bach nos deixou são os alicerces de toda a história da música moderna, de Mozart aos Beatles.

A Chaconne da Partita nº2 tem a fama de ser a peça mais difícil alguma vez escrita para um instrumento a solo. Um violinista tem que ultrapassar muitos obstáculos técnicos para a conseguir executar e os múltiplos contrastes e mudanças de sentimentos e a tensão que aumenta consideravelmente nas últimas secções são difíceis de interpretar. E não é fácil para um intérprete conseguir que todas as vozes e harmonias escondidas exprimam claramente todas correntes emocionais da presentes.

O arco Barroco

No tempo de Bach, cujo instrumento primário era o violino, usava-se um arco maior e com menor tensão do que o que se usa actualmente. Os arcos actuais, de desenho italiano, acabaram por os substituir porque permitem uma maior agilidade e rapidez na execução e tornam o som mais brilhante. No entanto, o arco barroco permitia executar acordes de 3 e 4 notas, que são muito abundantes na Chaconne. A execução em violino desses acordes é hoje complicada e não resulta do mesmo modo. É necessário tocar duas notas em duas cordas e mover rapidamente o arco para as outras deixando, sempre que possível, as primeiras ressoar (mantendo as cordas respectivas premidas).

A concentração e a profundidade de sentimento nesta peça é incomparável. É uma peça cheia de sentimentos que explora toda a paleta de emoções humanas. Johannes Brahms (1883-1897), que chegou a fazer uma transcrição para piano da Chaconne, considerava-a a peça musical mais maravilhosa alguma vez escrita e aquela em que é mais difícil entender como se consegue uma tal profundidade, conseguindo que, numa pauta para um pequeno instrumento a solo, esteja presente todo o mundo dos pensamentos mais profundos e dos sentimentos mais poderosos. Brahms dizia que se tivesse sido ele a concebê-la, ficaria de certeza fora de si depois da experiência avassaladora e do excesso de excitação por a ter composto.

Em toda a sua obra, Bach harmonizou e manipulou a substância musical de muitos corais religiosos compondo, com base neles, peças de outros géneros musicais, incluindo mais de 200 cantatas. Cada coral estava associado ao significado do seu texto.

De acordo com a musicologista alemã Helga Thoene, cada um dos movimentos da Partita nº2 é inspirado num coral religioso associado à meditação sobre a morte. Dentro da harmonia da Chaconne estão as notas do coral "Christ lag in Todesbanden" (Cristo jaz sujeito à morte) que representa a intensa tristeza da morte e a esperança de uma vida eterna. Segundo ela, Bach terá provavelmente composto a Partita nº2 como um memorial fúnebre à sua primeira mulher.

Há um disco recente - Morimur - em que se pode ouvir a Partita nº2 tocada pelo violinista Poppen com o acompanhamento vocal do Hilliard Ensemble que entoa os corais religiosos correspondentes.

 

Transcrições para piano e guitarra

Pressente-se na Chaconne um certo carácter romântico que é tornado mais explícito nas suas transcrições para piano (de Busoni, composta em 1892) e guitarra (de Segovia) - instrumentos cujas possibilidades harmónicas são mais vastas. Na sua transcrição para piano, Busoni trabalhou a textura original do violino em termos do seu equivalente num órgão, seguindo o exemplo do próprio Bach que transcreveu para órgão a sua Fuga em Sol menor para violino. O carácter mais romântico destas transcrições revela algumas das potencialidades latentes desta obra que seria pena que ficasse apenas no campo fechado do Barroco puro. Bach, que procurava sempre novas sonoridades e fazia muitas transcrições, teria por certo aprovado este enriquecimento por uma harmonização variada que dá a cada uma das suas numerosas variações uma atmosfera e uma cor próprias que elas não têm na versão original, essencialmente mais melódica. A melodia nasce a solo e vai sendo ampliada como numa cadência de concerto. Os contrastes são multiplicados pelo recurso a todos os efeitos possíveis, inclusivamente a supressão brusca de toda a harmonização. O peso modulado do acompanhamento reforça - ou introduz? - a percepção de uma progressão dramática, nomeadamente por uma amplificação sonora que vai crescendo em socalco em cada variação consecutiva.

 

o que é uma chaconne

estrutura global

 

execução

O intérprete deve acentuar ligeiramente o tempo que corresponde ao tempo forte de dança numa chaconne - as notas ponteadas implícitas que ocorrem no segundo tempo de cada 4 compassos - e estar atento à estrutura rítmica do motivo e das suas transformações. As aumentações do motivo (mais lentas ou com intervalos aumentados) alargam-no - o que, na execução, se deve traduzir por uma maior importância e amplidão. As diminuições têm o efeito contrário. Nas várias diminuições que começam fora de tempo e terminam no tempo, as primeiras 3 notas deverão ser mais dinâmicas e enérgicas com um ênfase que desaparece depois na nota final. O carácter de versão abreviada do motivo básico das elisões ou o de elaboração presente nas interpolações devem também reflectir-se na execução.

O intérprete deve também estar consciente das transformações temáticas e reconhecer as frases em que há um contraponto implícito que simula um diálogo entre vozes diferentes de modo a que estes sejam naturalmente realçados na execução da peça. Por outro lado, as melodias ascendentes devem ser executadas com um espírito diferentes das descendentes. As primeiras tendem a exprimir um acréscimo de energia e as segundas um relaxamento. Há uma certa dicotomia do tipo pergunta/resposta ou masculino/feminino.

Se o intérprete não estiver consciente da estrutura das frases e dos desenvolvimentos do motivo, torna-se difícil que elas sejam compreensíveis na audição. Se estiver consciente delas, o seu realce será expresso com facilidade na execução, sendo até difícil de evitar.